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    Filme que retrata a realidade do Bairro Baronesa em Santa Luzia, Chega aos Cinemas


    O Bairro Baronesa, em Santa Luzia, tem origem nobre. Fundado há quatro décadas, ganhou esse nome em homenagem à baronesa Maria Alexandrina de Almeida. Afilhada de dom Pedro II, ela foi casada com Manoel Ribeiro Vianna, o primeiro barão da cidade vizinha a Belo Horizonte. As ruas e avenidas do bairro periférico levam os habitantes a uma viagem pelo globo: Europa, Oceania, França, Suécia, Espanha.

    Andreia não conhece nenhum desses lugares. Já esteve em boa parte do Brasil, rodando desde criança com uma mãe que levava os filhos para onde lhe conviesse. Vivendo em uma favela do Bairro Juliana, onde está prestes a eclodir uma guerra do tráfico, ela só tem um sonho: juntar dinheiro para construir sua própria casa no Baronesa.

    Estreia na direção de Juliana Antunes, Baronesa chega nesta quinta-feira (14) ao circuito comercial de todo o país através do programa Sessão Vitrine Petrobras. Em BH, o filme será exibido nos cines Belas Artes, Cidade e Del Rey – no sábado, às 20h20, no Cidade 1, a sessão será seguida de debate com a diretora, produtoras e elenco.

    Desde sua primeira exibição pública – na Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2017, quando levou o prêmio de emelhor filme –, o longa-metragem correu o mundo em diferentes festivais de cinema. Alguns deles dedicados ao documentário, caso do Forumdoc, em BH; Reencontres Internationales de Montréal, no Canadá; Ambulante Documentary Film Festival, no México; e Punto de Vista International Documentary Film Festival, na Espanha.

    Mas esqueça. Baronesa é um filme de ficção. “Queria fazer o melhor filme possível. Fui muito de peito aberto, com metade do orçamento de um longa-metragem. Nunca foi minha intenção colocar em xeque o que é verdade e mentira. Queria ser verdadeira no que estava filmando. Já a palavra final é sempre de quem vê”, afirma Juliana Antunes.

    Explica-se: Baronesa não é apenas um filme, mas um projeto de vida. O projeto consumiu sete dos 29 anos de Juliana. Vinda de Itaúna há uma década para estudar cinema na UNA, em Belo Horizonte, ela não demorou a perceber linhas de ônibus que levavam a bairros com nomes femininos. Começou a pesquisá-los, processo que a levou a um documentário para a faculdade.

    Veio então a vontade de fazer um filme. Com duas colegas do coletivo Pepeka Pictures – Marcela Santos e Giselle Ferreira –, Juliana foi se aproximando do universo que queria filmar. Na Vila Mariquinha, favela entre os bairros Juliana e Jaqueline (região de Venda Nova), tentou diferentes abordagens, já que queria filmar com mulheres que viviam no local. Nada funcionou, até que, dois anos mais tarde, através de cartazes colados ao lado de um salão de beleza, o trio encontrou suas protagonistas: Leid e Andreia.

    A segunda, muito reticente, “deu uma canseira” em Juliana e na equipe – condicionou sua participação no projeto a Juliana morar na favela. A diretora alugou um barraco de 30 metros quadrados onde viveu, sozinha, por seis meses.

    Baronesa concentra-se no dia a dia de Andreia (Andreia Pereira de Sousa), uma manicure que quer deixar o lugar; Leid (Leid Ferreira), dona de casa, mãe de quatro filhos, que espera o marido deixar a cadeia; e Negão (Felipe Rangel), um pequeno traficante. Todos vivem à espreita de uma anunciada guerra do tráfico.

    A narrativa foi construída a partir de recortes da vida dos personagens. Mulheres conversando sobre masturbação enquanto fazem as unhas; o relato do abuso sexual sofrido seguidamente durante a infância por parte do padrasto; a reação ao saber que o filho mais velho está abusando do mais novo; uma conversa regada a doses de cerveja e cocaína; um grupo de mulheres se divertindo em meio a uma coreografia de funk.

    A grande maioria das conversas fui eu que propus. A Andreia e a Leid entraram no jogo do cinema. São supertalentosas, só não tiveram a oportunidade de estudar. Cada cena foi uma negociação a cada dia”, conta Juliana, que utilizou elementos de sua própria história para complementar a narrativa – as fitas negras colocadas em postes que anunciam a morte de um personagem vieram da memória da infância da diretora no interior de Minas.

    Juliana chegou à Vila Mariquinha com uma intenção. “Tinha caminhos possíveis, um norte mínimo”. Num certo momento, a ficção é “invadida” pela realidade. Tiros são disparados bem próximos ao local da filmagem. A imagem da câmera verte e atrizes e diretora correm para dentro da casa. Juliana admite que o momento foi de quebra. “Ali há uma ruptura na tela, que deixa a dúvida sobre o que é real e o que não é, representando a mistura total do filme.”

    Baronesa foi coproduzido pela Ventura (produtora de Juliana, Marcella Jacques e Laura Godoy) e a Filmes de Plástico, que realizou a finalização do longa. É um filme de uma mulher sobre mulheres. A equipe de filmagem, mínima – no máximo três pessoas – era também quase que exclusivamente feminina. A exceção é o realizador Affonso Uchoa, "fundamental para a existência do filme", destaca Juliana, que o creditou como "guru espiritual" do projeto.

    O cinema mineiro ainda é muito machista. Ninguém acreditava no projeto, pois ele era grande e feito por uma pessoa que nunca tinha feito nada. É um filme de guerrilha, de resistência”, conclui.

    ROAD MOVIE LGBT

    Excursões rodoviárias que saem da periferia de Belo Horizonte inspiraram Juliana Antunes a escrever o roteiro de seu segundo longa-metragem. “São várias as excursões de ônibus voltadas para pessoas que não conhecem o mar. Você paga R$ 100 e passa um dia no Rio de Janeiro. Os ônibus saem sábado à noite e voltam no domingo, antes do pôr do sol”, conta ela. Com roteiro já finalizado, Bate e volta Copacabana vai acompanhar “meninas marginalizadas da periferia, lésbicas de 18, 19 anos, que, ao chegar ao Rio, perdem o ônibus propositalmente”, revela a diretora. As personagens conhecem outro grupo gay, vão parar na favela Pavão Pavãozinho, e depois retornam de carona para BH. “Enquanto Baronesa é um filme entrincheirado, este vai cair para o mundo”, acrescenta Juliana.


    CURTA ABRE SESSÕES 

    Travessia, curta da realizadora baiana Safira Moreira, vai abrir as sessões de Baronesa. O filme nasceu da ausência de fotografias da bisavó e da avó da diretora. Hoje radicada no Rio de Janeiro, Safira começou a garimpar fotos de mulheres negras nas feiras de antiguidade da cidade. De acordo com ela, o curta é “fruto do apagamento histórico da população negra no Brasil”. Todas as imagens que ela encontrou estavam em álbuns de famílias brancas. “Logo, elas refletiam esse apagamento”, acrescenta Safira.

    Abaixo, confira o trailer de Baronesa:

     

    Fonte: Uai

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