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    Crise de abastecimento no campo: Sem ração, aves e suínos apelam para o canibalismo


    O canibalismo entre aves e suínos é um dos sinais alarmantes da crise de abastecimento provocada pela paralisação de caminhoneiros desde a última segunda-feira (28). Como a ração não tem chegado aos produtores, os animais começam a comer uns aos outros na tentativa de aplacar sua fome.


    As aves estão passando fome, então dispara um mecanismo fisiológico. Elas estão num grupo fechadas e famintas, então eventualmente estimula um canibalismo. E, sem nutrientes, a mortandade é cada vez maior”, diz Helenice Mazzuco, pesquisadora de área de produção de aves da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).


    Isso é um comportamento inato de todas as espécies de modo geral”, afirma Osmar Dalla Costa, pesquisador da área de bem-estar de suínos da Embrapa.

    Segundo os pesquisadores da Embrapa, o tempo para que os animais entrem nesse processo de canibalismo varia de acordo com seu estado fisiológico, nutritivo e com o modelo de produção. O isolamento dos animais em pequenos espaços, por exemplo, impede que eles fujam ou se defendam uns dos outros. No caso das aves, é preciso mais de um dia sem nutrientes para que o canibalismo apareça.

    Nos casos de canibalismo registrados durante a greve de caminhoneiros, a explicação é o estresse gerado pela fome dos animais. Mas outros fatores, como doenças e variação brusca de temperatura, também podem desencadear esse comportamento.


    Segundo Costa, há uma deficiência nutricional. Os suínos percebem que a rotina de alimentação de cerca de cinco vezes ao dia foi alterada. “Eles sabem pelo metabolismo que está na hora de receber alimento e não recebem, então começam a ficar nervosos e agitados e ter comportamentos anormais.

    Nesses casos, os animais maiores se impõem sobre os menores e praticam o canibalismo. “Os dominantes começam a ver que eles têm vantagens sobre os outros. Eles mordem e começa a gerar uma ferida, sair sangue. E o sangue é um alimento que eles gostam do sabor, então começam a cada vez morder mais os animais. Como o animal é menor e omisso, acaba se entregando”, diz o pesquisador.


    Em pronunciamento neste domingo (27), o presidente Michel Temer (MDB) mencionou a preocupação trazida pela ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), de que 64 milhões de aves e pintinhos já foram perdidos por conta da crise. “E até me disseram uma coisa fisicamente preocupante: eles não tem nem como enterrar esses animais que venham a perecer”, disse Temer.

     Na sexta-feira (25), o presidente Michel Temer usou a canibalização de frangos como exemplo do impacto da ação dos caminhoneiros. "Os frangos estão morrendo. Eu nem sabia que eles podiam canibalizar-se. Eles estão se canibalizando", disse. "Imagina o drama terrível que os produtores estão passando."


    Segundo a ABPA, entidade que representa a avicultura e a suinocultura, o número de animais mortos “cresce exponencialmente a cada hora que passam sem o alimento”. A associação informou ainda que 167 unidades frigoríficas estão paradas no país, o que significa 234 mil trabalhadores sem ter o que fazer.

    Mazzuco diz que essas aves mortas por falta de alimento não chegam à mesa do consumidor. “A ave que está passando fome não vai ganhar peso. É só pena e pele, nem tem carne.


    O cuidado é justamente como descartar milhões de aves perdidas sem atrair doenças. “Essa ave morta é preocupante, porque passa a ser um problema de saúde pública. Animal morto vai trazer doença, putrefação, odores, moscas. Por isso existem normativas que falam que diante de uma mortalidade catastrófica, como esse caso, é necessário dar um fim ao lote todo, indo pra incineração ou fossas”, diz.

    No ofício enviado ao presidente Temer, a ABPA também menciona riscos à saúde pública: “Mal alimentado, o sistema imunológico do animal entra em colapso ---um dano irreparável. O bem-estar animal não se recupera e o canibalismo já começa a ocorrer entre os animais nas granjas. O animal, nestas condições, está suscetível a diversas doenças graves que podem, inclusive, comprometer a saúde humana. Também há risco de disseminação de enfermidades com a morte descontrolada de animais no campo, com impactos diretos ao meio ambiente, aos lençóis freáticos, rios e a qualidade da água para a população”.


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