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Sem dinheiro ou apoio atletas do Arsenal de Santa Luzia Agonizam na Segundona Mineira

Jogadores alegam o pagamento de R$2.500 destinados à inscrição do Arsenal na 2ª Divisão do Mineiro. Valor arcaria também com custos de viagem; clube, entretanto, teria disponibilizado transporte apenas para os dois primeiros jogos da competição.


O desejo de atuar por um grande clube acompanha muitos atletas em times de menor expressão. No Arsenal de Santa Luzia, entretanto, esse sonho tem se transformado em pesadelo. Os jogadores da Águia entraram em contato com a redação do Superesportes alegando que contam com condições precárias de treinamento e falta de alimento no alojamento da equipe. Ainda segundo a denúncia, o clube não estaria arcando com custos de transporte, deixando esses e outros gastos sob responsabilidade dos atletas. A reportagem do portal Superesportes colheu dezenas de depoimentos sobre a situação e, a convite dos próprios jogadores, compareceu a um dos treinamentos do time que disputa a 2ª Divisão do Campeonato Mineiro – categoria abaixo dos Módulos I e II do Estadual.


O Arsenal treina nas proximidades do Parque Municipal Professor Guilherme Lage, no Bairro São Paulo, em Belo Horizonte. O acesso ao local ocorre por meio da BR-262, pelo Anel Rodoviário. O campo de treinamento não poderia ter um nome mais adequado: Matadouro. Além da presença dos atletas, comissão técnica e diretoria, a atividade conta com convidados nada ilustres. Bois, vacas, bodes, cavalos pastam na grama alta e competem com os atletas por um espaço dentro de campo. Sem vestiários, os jogadores se trocam ao ar livre enquanto dividem o local com os animais.



Ao chegar ao Matadouro, a reportagem foi recebida por Marco Antônio Lima, que se identificou como supervisor e responsável pelas finanças do Arsenal. O dirigente, que também é ex-árbitro, nos comunicou que Osias Campos Figueiredo, presidente do clube, estava em um carro nas proximidades, mas não se pronunciaria.

Enquanto conversávamos com Marco Antônio, entretanto, o mandatário se aproximou e resolveu dar sua versão sobre as condições de trabalho no clube. Osias acredita que a presença dos animais no treino não prejudica os atletas: “Isso não atrapalha nada aqui, pô. Atrapalha em nada não”, disse.



“Aqui usamos só para fazer um alongamento. O campo que a gente treina é o do Frimisa de Santa Luzia. Esse campo aqui, estamos vindo duas vezes na semana. O Frimisa está em reparo há uns 15 dias”, frisou o presidente.

Segundo Osias, o Arsenal também realiza seus treinamentos em um campo do Santa Cruz Futebol Clube, em Santa Luzia. Posteriormente, os jogadores negaram a informação e afirmaram que treinam diariamente no Matadouro. Por telefone, os atletas garantiram que a única exceção fica por conta das atividades que ocorreram poucas vezes no Campo Cigano, localizado no Bairro São Gabriel, em Belo Horizonte, e que teria condições ainda piores às apresentadas pelo Matadouro.


Diretoria nega denúncias 

Quando questionados sobre a assistência dada aos atletas, Osias e Marco Antônio negaram a denúncia de que os jogadores não estariam se alimentando de forma adequada. A dupla ainda garantiu que o clube não pediu ajuda financeira aos jovens para arcarem com despesas extras, como transporte e inscrição do Arsenal na Segunda Divisão do Mineiro.

Aqui ninguém cobra absolutamente nada de ninguém. Aqui o jogador ajuda dentro das possibilidades”.

O cartola, entretanto, admitiu que há dificuldades no deslocamento dos atletas entre os jogos, mas reafirmou que o clube arca com todas as despesas. “Às vezes não temos um ônibus para ir. Não tem dinheiro para pagar o transporte. Mas aí eles vão no meu carro ou no de outro diretor. A gente ajuda com o combustível, isso é normal, fica mais fácil. Nós não conseguimos ônibus por causa dessa greve da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres)”.


Marco Antônio ainda explicou as despesas do clube e chegou a mostrar algumas notas fiscais que comprovariam o pagamento da assistência aos atletas, mas não deixou que a reportagem examinasse o conteúdo da documentação.
O presidente completou as informações, garantindo que já fecharam acordo com uma empresa de transporte para todos os jogos do Arsenal. Osias ainda atribuiu as denúncias ao suposto descontentamento de algum atleta com a condição de reserva.


“Já fechei todos os jogos com uma empresa. Eles (jogadores) viram ônibus de primeira lá no campo. Mas o que acontece é o seguinte, às vezes o camarada faz de maldade porque fica na reserva e faz uma denúncia anônima”, afirmou.


Jogadores contradizem presidente

Durante a primeira parte do treino, o presidente solicita aos jogadores que deem suas versões sobre a realidade do Arsenal. Osias chama os atletas à beira do gramado para que possam conversar com a reportagem. O mandatário acompanha as entrevistas dos esportistas nesse primeiro momento.

O goleiro Douglas Firmino da Silva, de Nova Era, mora no alojamento e nega que esteja passando fome, mas admita desconhecimento em relação à origem dos mantimentos. “Não sei como chega o alimento lá, mas faltar nunca faltou. Como chega, se alguém doou ou não, aí não sei te falar”, disse.

Outro atleta convocado para dar seu depoimento, Victor Hugo, o ‘Paulista’, é natural de Oscasco-SP e também está instalado na concentração do clube. O meia-atacante começa a conversar com a reportagem sobre a estrutura do Arsenal, mas é interrompido pelo presidente Osias, que pressiona o jovem durante a entrevista.



Superesportes: “As denúncias em relação ao Arsenal procedem”?
Paulista: “Algumas sim, algumas não”
Superesportes: “Em que ponto?”
Paulista: “Da parte da estrutura. Da parte do alojamento melhorou bastante”
Presidente Osias (interrompe o atleta): “Vocês têm passado fome lá?”
Paulista: “Não”
Presidente Osias: “Você tem uma cozinheira que te faz a comida?”
Paulista: “Temos”.

Osias aposta na veracidade do testemunho dos atletas: “O jogador não ia mentir, ele ia falar na minha frente aqui”. A confiança do presidente, entretanto, cai por terra no instante em que o grupo é indagado longe dos olhos da diretoria. Ao se reunirem no intervalo da atividade, os esportistas relatam à reportagem uma situação completamente diferente da descrita pelos cartolas.

Sem o mandatário por perto, a maioria do grupo expõe uma situação de descaso por parte do clube. Alegando medo de represálias que possam prejudica-los profissionalmente, os atletas preferem que seus nomes não sejam identificados. Eles contradizem a diretoria e revelam que o abastecimento de alimentos é precário.

“Desde quarta-feira passada que a gente não toma café, não tem pão no alojamento. A gente acorda e almoça”, diz um jogador que mora nas dependências do clube. Outro atleta corrobora com a versão, divulgando o cardápio do almoço na concentração do Arsenal: “Arroz com chuchu”.

O testemunho dos jogadores revela a união do grupo em prol dos que estariam passando dificuldades. Segundo esses depoimentos, os atletas que vivem na concentração estariam recebendo doações dos seus companheiros para terem acesso a uma alimentação adequada. “Amanhã vou levar uma compra de frutas e verduras para a casa. Mas isso é obrigação de quem? Do presidente”, afirmou.


Atletas revelam gastos extras com o clube

Os atletas relatam que, no momento em que assinaram com o Arsenal, sabiam que não receberiam salários, entretanto viam oportunidade como uma chance de projeção. Mas além de não serem pagos, alegam que tiveram que arcar com gastos extras. Há relatos de jogadores que tiveram que pagar R$700 para se transferir para o clube e R$300 pelo contrato com a CBF.

Depois da realizar a peneira que selecionou o elenco da equipe em janeiro, o clube teria solicitado aos atletas o pagamento de R$2.500. A quantia viabilizaria a disputa da 2ª Divisão do Campeonato Mineiro e cobriria as despesas com viagens, alimentação e hospedagem. Mas o retorno não veio, visto que os jogadores afirmam que o clube só disponibilizou transporte nas duas primeiras partidas da competição.


“Pagamos R$ 2.500 e falaram que esse dinheiro seria arcado com o campeonato (2ª Divisão do Mineiro)”.

Os atletas frisam que vão aos jogos em transporte particulares. Nas palavras dos jovens, precisam “se virar” para chegar ao local das partidas. Ao contrário do que a diretoria alega, os jogadores garantem que o clube não arcou com esses custos, e em momento algum, repassou aos jovens os valores gastos em gasolina e demais despesas.

Em um dos compromissos do clube, um dos atletas teria levado um “calote” do presidente Osias. Segundo o elenco, o jogador contratou transporte para leva-los a um jogo sob a garantia de que o mandatário financiaria os custos. O cartola, entretanto, não teria comparecido no momento de fazer o pagamento, deixando a dívida por conta do esportista.

“Teve um companheiro nosso que arrumou uma van para irmos ao jogo. O presidente falou para que pagaria. Chegou na hora, o presidente ‘vazou’ e agora o cara da van está cobrando do menino”.

Por fim, os atletas relataram um desentendimento entre o presidente Osias e o dirigente Marco Antônio. A dupla teria se desentendido em relação à contratação de um ônibus para transportar o elenco. Desde então, só voltariam a se falar com a chegada reportagem ao Matadouro.

“Aqueles dois se desentenderam por causa disso, que não era pra contratar ônibus. Não conversavam até hoje, até agora. Nem olhavam um na cara do outro. O Osias chegava e ficava no carro até o Lima ir embora”, garantiu um dos jogadores.

Visita ao alojamento

Após ouvir os atletas, a equipe do portal Superesportes foi convidado pelo presidente Osias a fazer uma visita ao alojamento do Arsenal. O dirigente Marco Antônio Lima disse que não acompanharia a reportagem no local, mas garantiu: “Nós temos uma concentração aqui que é uma casa de luxo”.

A casa onde os atletas residem se localiza a algumas quadras do campo Matadouro. O presidente levou a reportagem ao local, onde foi recebida por Noélia Magalhães Rodrigues, que diz trabalhar há dois meses na concentração. Enquanto guia a visita, Osias fala sobre as dificuldades de lidar com jogadores.

“Se é difícil lidar com jogador? Monta uma casa de prostituição que é melhor”, afirmou.

Na casa, encontramos um quintal com varal e um galinheiro ao fundo. Os quartos não têm portas, apenas um lençol os separa dos outros cômodos. A geladeira da cozinha está desativada, mas o presidente mostra algumas panelas com restos de alimento em um freezer. Acima do refrigerador, ficam dois recipientes com suco de laranja.

No interior da casa, há uma espécie de refeitório. Nesse cômodo, Osias revela com orgulho uma pequena caixa e um saco de alimentos lacrados. Ele diz que comprou os mantimentos recentemente, abre o caixote de papelão na nossa frente e garante que renova a dispensa do alojamento diariamente.

Ao fim da visita, Osias faz um pedido à reportagem: “Faz uma matéria bacana lá para a gente. Não deixa ‘escrachar’ muito o time. Isso cria uma imagem, vai para a cabeça dos jogadores. O time já começa a cair, isso é ruim pra caramba”, conclui.

Fonte: Superesportes

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